Fotografia


Da onde eu vim as pessoas acreditam que toda vez que tiram uma fotografia sua alma fica presa à ela e esse é um dos motivos de quase nunca vermos uma fotografia com rostos.
Mas eu já cresci o bastante para saber que o que fica preso não é a alma e o coração, a mente e toda aquele êxtase da sensação do momento que você escutou aquele, sorria pra foto, diga xis, ou simplesmente quando reparou no flash no meio da escuridão.
É tão comum me pagar olhando pro passado e desejando aquele momento novamente, que lagrimas brotam do interior dos meus olhos escorrendo pelo meu rosto. Olhar para todas essas fotos me faz perceber que sinto falta de tantos que já se foram e não se faram mais presentes e que o único jeito bonito de homenageá-los é sorrir e ser feliz, é isso que meu coração fala mas é tão difícil sentir isso com tanta saudade e lacunas abertas em meu peito.
Eu poderia correr por vastos campos abertos, cobertos por grama e capim alto ou então pela areia meio molhada na beira do mar ou ainda cair com paraquedas, que a sensação de tristeza mais cedo ou mais tarde viria e cobriria a mim dos pés à cabeça, tão fácil quanto uma mãe acalma o filho recém-nascido.
Poderia ainda assim lutar contra vilões ao lado de heróis ou impedir que uma doença misteriosa acabasse atingindo milhares ou ainda poderia laçar um boi bravo sozinho, sendo tomado por tamanha adrenalina, mas ainda assim ela acabaria no momento que eu discasse um determinado número e a foto dela aparecesse eu cairia em prantos.

As fotografias tem esse poder sobre nós meros espectadores, tanto sentimento envolvido em apenas uma imagem, que só seria preciso um prólogo apenas para explicar a situação que levou aquele click naquele determinado momento.

Escasso ar


Por breves momentos prendo todo o ar que aguento dentro de meus pulmões, por mais tempo que consigo, naqueles poucos instantes, é como se nada importasse, como se nada pudesse me chatear, é como se eu ficasse fora do alcance de todos e de tudo, como se criasse um limbo entre eu e o resto do mundo.
É como se por um segundo e apenas por esse segundo eu pudesse sair e correr sem direção, como se o que eu penso ou faço não interferisse em nada nem ninguém, como se nesse segundo, pudesse gritar, tudo o que sinto, vejo e desejo, o mais alto que minhas cordas vocais conseguissem, sem que ninguém reclamasse ou desdenhasse, diminuindo o caos que presencio todos os dias.

Quando inflo meu peito sinto que o limbo que se cria entre mim e o mundo, impede tudo que me aflige, assusta e assombra, é quando sinto e escuto cada turbulência dentro de mim ficar cada vez mais fraca e frágil ficando inexistente.

Bagunça mental


E tudo isso está uma bagunça, tanto o chão pelo qual tenho que pisar, quanto os meus sonhos que me atormentam toda vez que deito para fugir de toda essa realidade que não posso mas suportar. As coisas estão bem difíceis e no fundo eu sei que elas não irão melhorar, era assim mesmo que ela me dizia e é assim que eu aprendi.
No fundo eu sei que toda essa minha intolerância com tudo e com todos, essa agonia que vem em forma de lágrimas que deixo aparecer em forma de grito, é o medo de não conseguir ser o que ela me ensinou, eu sei que ninguém me pediu para fazer tudo que estou fazendo e que ninguém pediria para fazer, nem para suportar tudo só.
A verdade é que eu não gosto de parecer frágil, não gosto de deixar transparecer meus medos e minhas canções de tristeza, e sei que não preciso lutar contra isso, mas eu sei que assim estou sendo o bebê arrogante, estúpido e o que ela sempre amou.
Eu sei que muitas vezes respondi de forma incorreta, nada compatível com a forma doce que ela tinha, eu teria chorado canções, sem se quer uma vez ela levantar para me chutar, as palavras dela sempre fizeram as situações errôneas apodrecerem em minha mente, até elas ficarem tão claras e delicadas como um beijo doce de boa noite.

Muitas vezes me pego lembrando a cena horrível daquela noite, aquela que ela se foi, foi dizendo coisas que não entendíamos, foi para um lugar longe e distante cada vez mais e agora é só saudade e bagunça que vagam na escuridão da minha mente cansada e esgotada.

Pedido de aniversário


Fechar os olhos e desejar que todos os conceitos formados de conduta perfeita, fossem esquecidos, que todos os papos furados não passassem de discussões amigáveis ao redor de um fogueira em céu aberto, que todos os sermões nas entre linhas fossem claros como o sol em seu esplendor tomando o horizonte, reproduzindo sonhos a serem conquistados no entardecer.
Sentir que as ideias borbulhantes de sua mente tão confusa pela incerteza, não serão consideradas invalidas apenas porque só você pensa desta forma, conseguir passar suas concepções e não sentir remorso ou vergonha por suas ações futuras ou passadas.
Poder olhar nos olhos de seus colegas, inflar seus pulmões e falar de todos os seus anseios, conquistas, desesperos e conclusões finais, sem ser julgado ou até mesmo excluídos, e por mais difícil que seja, aceitar ser esquecido por aqueles que já lhe convidaram para tantos finais de semana.

Virar para traz, precisar abrir os olhos e começar a enxergar que seu pedido não passou de um monte de asneira e falta de clareza nos dias que vive, que todos estão sobrecarregados demais brigando com seus egos sem se esbarrar nos direitos alheios.

O eu do futuro?


Já teve aquela sensação de estar vivendo tudo de volta, falando as mesmas frases para as mesmas pessoas, como se tudo não passasse de um roteiro pronto, de mal gosto, e num estalo, se perguntou o que está fazendo aqui e agora, se todas as decisões que tomasse nas últimas horas, semanas, meses e até mesmo anos foram as certas, o que teria acontecido não apenas com você mas com todos ao seu redor se alguns sim fossem não e vice-versa?
Onde você estaria, ou onde gostaria de estar, e se aquela viagem tão esperada aos vinte e cinco acontecesse agora aos dezoito, para onde iríamos com vinte, com quem estaríamos, já teríamos esposa, filhos e os meus avós, ainda estariam me apoiando ou cuidando de mim lá do céu, e o que é o céu?
Quais seriam as lições e conceitos aprendidos e as histórias engraçadas no final da noite, eu seria ainda o contador de momentos pra galera, eu ainda teria uma "galera" ou seria o tiozinho que dorme as 9h e acorda as 5h?
Será que o eu de cinco anos antes sentiria orgulho do que sou, tendo base do que já fui? 

Corpo vazio


Há muito tempo olho no espelho e tudo que vejo não é nada, não tem vida nem mesmo uma rotina chata para reclamar, a apenas um corpo como tantos outros que dormem, comem, trabalham, saem mas não se divertem.
Tudo o que vejo pelo reflexo, quase inexistente, da lagoa já poluída, é um ser sem vida, que acorda todos os dias com o mesmo propósito imundo e sem graça, que se enche de planos todos os fins de tarde, planeja várias metas antes de dormir mas que acorda sem nenhuma iniciativa.
Que todos os dias tropeça caindo em pessoas negativas que não acreditam que possa haver mudanças, que acabam desencorajando, frustrando e contaminando os pequenos e vastos sonhos de alguém, pequeno demais para se defender, de alguém que só conhece pessoas sem solidariedade, sem humanidade que não tem ninguém para se apoiar e seguir.

Kelly's Pub


- Boa noite! O Senhor deseja algo?
- Desejo meus anos de volta, com todos os aprendizados que recebi nesses últimos 47 anos e uma dose do seu melhor ouvido pela próxima noite. Meu jovem posso parecer um velho acabado, debruçado sobre seu balcão, arranhado e grudento, mas já fui como você e todos sentados aqui, sem muita experiência, cheio de vontade e com um desejo insaciável por aventuras.
Bem, em uma noite, deixe me pensar, à mais ou menos uns 28 anos atrás, eu estava na esquina desse bar, bem, como posso falar sem parecer imbecil? Conhecendo uma jovem assim por se dizer, mal poderia saber que, a partir daquele momento, me tornaria o que sou hoje, procurado não apenas pela polícia, por um dos mais astutos assaltos com reféns, éramos cinco, naquela tarde ensolarada de terça-feira, entramos as 15:37, haviam poucas pessoas trabalhando naquele dia, sete ao total e clientes eram onze, havia uma mãe com uma criança de colo, lembro daquele menino de olhos castanhos escuros, que não parava de chorar e por isso liberamos, tanto ele como sua mãe que fedia a vômito fresco poucos minutos depois, você sabe o que fazem com assassinos de crianças em presídios? Bom, não queira saber.
Como eu dizia, ficaram dezesseis reféns ainda, pedimos para que enchessem as malas com rapidez, não queríamos demorar muito lá dentro para não haver ainda mais complicações do que já havia ocorrido, aquele banco cheio de lustres e desenhos de anjos já estava cercado de policiais, e isso já passava das 15:51, a cada minuto que passava, ficávamos ainda mais apreensivos, quando um de meus parceiros disse que deveríamos negociar com o Chefe da operação Carlos, que me parecia um bom homem, apesar de estar querendo me prender.
- Negociações nunca dão certo.
- Não interrompa! Carlos fez muitas propostas, mas todas elas nos deixava de mãos atadas e sem nenhum refém, foi quando olhei para a linda moça que havia conhecido na noite passada e cogitei desistir dos meus parceiros de anos, e comecei pensar apenas em mim e nela, eu sei meu jovem parece um tanto quanto egoísta, não é mesmo? Ainda mais se pararmos e pensar que não fazia nem 24H que nos conhecíamos, chamei para longe e conversamos por quase uma hora, planejamos o que faríamos e chegamos a uma única solução.
Ela foi chamar o restante do grupo e ficou enrolando enquanto isso liguei para o Chefe Carlos e fiz de conta que era um refém e passei informações de como sua equipe deveria proceder, expliquei onde “nós reféns” estávamos, e quantos eram os “assaltantes”, por onde era melhor sua entrada e em que momento, prometi que na hora chamaria a atenção de meus cúmplices e criaria uma distração para a equipe de Carlos ser bem sucedida.
Feito isso, voltei para perto da moça e acertamos os últimos detalhes, isso era 16:50, fazendo parte do nosso plano, ordenei que eles fossem para perto dos reféns, como havia combinado com Carlos alguns minutos antes, peguei a moça pela mão e falei que iríamos estudar uma rota de fuga para todos, foi quando começamos nossa própria fuga.
- Abandonasse seus amigos por uma única mulher, mas...
- Meu jovem, tenha calma. Subimos para o terceiro piso, lá tinha uma escada externa em caso de incêndio, esperamos pelo lado de dentro da janela, até escutar o estrondo da porta de baixo romper o silêncio no prédio, foi quando eu sai primeiro, e ela foi logo atrás de mim, tão rápido quanto conseguia, mal consegui ar suficiente, era como se meu pulmão tivesse parado, num estante estávamos na calçada, com três malas, e dentro de cada uma delas havia mais ou menos R$700 mil, e logo estávamos andando na rua como se fossemos curiosos pelo acontecimento, apenas turistas enxeridos. Meus amigos, assim como você falou, foram pegos, dois deles acabaram morrendo, um por um policial e outro não encarou muito bem o fato de ser preso, e antes mesmo que alguém pudesse ter feito algo puxou o gatilho se despedindo desse mundo, o outro foi preso, julgado e condenado, deixando bem claro que tudo o que aconteceu naquela tarde foi a meu mando, assim que soube disso sumi, abandonei a moça e o bebê que ela esperava.
A propósito, o nome da moça era Kelly!
- O que?!!!

- Isso, Kelly, soube que ela usou o dinheiro daquele dia para comprar esse bar, criar seu filho, ter uma vida tranquila, soube também que seu filho tem os olhos do seu pai, tão claros quanto água cristalina, meu jovem já reparasse que seus olhos brilham tanto quanto os meus em noites mais estreladas!