Ternura desbotada


Então me sentei e fiquei a ver se desmanchando, vendo tudo tomando direções contrarias com caminhos longos, revendo aqueles, que costumavam dizer que permaneceriam, indo sem muitas explicações ou exigências, mas ali tomando café numa xícara lascada assistindo o meu filme preferido, recordei que caminharíamos quilômetros e quilômetros para se reencontrar se fosse preciso, palavras nossas, ditas em momentos de despedida.
São tantas memórias que precisarei esquecer daqui para frente, com o tempo deixarei todos os costumes que impregnaram em mim, terei que me controlar para não sair correndo, agarrar o telefone a qualquer momento e contar tudo que acabara de acontecer, nem mesmo terei alguém para me confortar e despreocupar com um ‘tudo vai acabar bem, só esperar que mais cedo ou mais tarde tudo se acerta’.
São tantos momentos, tantos planos e tantos sonhos incomuns que irão se perder como o de tantos outros, outros que sempre falávamos que não iríamos fazer igual, iríamos resistir ao tempo, iríamos mostrar que estamos certas quando falamos que íamos nos cuidar, nos aguentar e ficar juntas até depois dos netos.
Agora tudo é saudade, tudo é lembrança e aqui dentro de mim é tristeza e mágoa de não ter a sua companhia no fim da tarde para um caminhar agradável, não lhe ter para festar comigo minhas alegrias ou para escutar meu reclamar.
Olhar para o lado e não encontrar alguém que sempre chamei de especial, de irmã, de melhor amiga, olhar para o infinito de caminhos e não encontrar ninguém, pois você não está mas aqui para mim.
Terei que caminhar só até esbarrar com alguém que possa curar todas as feridas que você abriu em mim, que possa segurar minha mão e me deixar feliz, que me fará sentir bem como nunca antes e que eu possa em fim esquecer tudo o que aconteceu.


Metas vazias


Hoje pela manhã quando sai da cama, fui acolhida por uma brisa gélida, cheia de nostalgia de quando era pequena, cheirinho de café e pão no forno, parecia uma manhã normal, abri a porta pesada de maneira, então pude perceber que era como se estivesse no futuro, não reconhecia os cômodos, nem mesmo as pessoas ali, cada instrumentos presente ao meu redor não funcionava, os telefones estavam mudos.
Em meu contorno havia centenas de milhares de pessoas pra lá e pra cá, com olhos vazios vidrados, cabisbaixos, anda, corre, trabalha, dorme e acorda. Treinos viram horários até mais tarde, saídas com amigos transformadas em reuniões corporativas, tempo com os filhos em checklist para apresentações do dia seguinte, no final do dia se pergunta para onde foi todo aquele tempo entre o almoço e o jantar, pergunta-se sobre as danças, os drinks e os encontros românticos.
Almeja tanto o termino, que acaba esquecendo onde quer ir e como quer chegar, desconsiderando o pódio de memorias infinitas carregados de sentimentos inexplicáveis, fantasiando com falsas realizações. 

Maldita floresta


Depois de tantos anos continuo me sentando na varanda, que está caindo aos pedaços, para ver o sol descendo pelas colinas, que trazem a escuridão que há em cada entranha daquela floresta que cobre aqueles amontoados de terra que fazem as enormes colinas.
Aquelas malditas terras que parecem saber que me assombram, com todos aquelas fantasmas do passado que sempre me rodeiam, desde o momento que abro os olhos pela manhã até quando, exaustado, paro de brigar com eles em minha perturbada mente.
Por muitas vezes, poderia jurar que aquela maldita floresta me encara, pois, quando à olho é como se lá dentro, bem no meio de seus labirintos, algo me chamasse, como se meus fantasmas resolvessem gritar todos juntos para que eu marchasse para dentro daquele emaranhado de solidão tumultuada.
Em algumas noites, quando deixo a agonizante curiosidade falar mais alto que o medo covarde que vive em mim, sentado aqui choro, grito e discuto dizendo a mim que deveria enfrentar essa maldita eu não entendo como a polícia pode dizer que essa questão está resolvida. Essa questão não estará resolvida tão cedo, pois essa maldita floresta me roubou tudo o que eu tinha, tudo o que eu mais precisava, tudo o que tinha valor nessa atormentada vida.
A única coisa que não me deixou, se é que eu posso falar isso, foi o maldito rum que carrego comigo, que as vezes acaba e preciso achar mais, posso ver alguns jovens que devem ter a idade que eu tinha quando tudo isso começou, dizendo coisas do tipo “olha aquele velho maluco que mora no pé da floresta morta”. Se eles soubessem que eu vivo lá por que ainda espero minha querida Rose não falariam assim, eu sei que o tempo passo e isso têm quarenta anos, mas Rose disse que voltaria para os meus braços algum dia.

Ainda me lembro de seus cabelos laranja avermelhado, tão longos que voavam com a brisa de seu sorriso, de seu vestido azul céu que à deixava ainda mais reluzente correndo mata à dentro, fugindo de seu pai furioso, suas últimas palavras à mim foram: “voltarei logo para então fugirmos, tomar banho nas águas frias do mar do pacifico, meu bem, eu te amo!” então nunca mas, minha amada Rose, voltou desses malditos labirintos, mas eu ficarei aqui até ela retornar pois eu prometi que à esperaria e que realizaria seu sonho de menina.

Conflitos restritos


Quantas vezes você estava caminhando e de repente parou e sentiu o vento, escutou pessoas conversando e rindo, carros, motos e ônibus indo e vindo, grilos cantando se misturando com buzinas e estardalhaços olhou à cima e quis juntar-se as estrelas.
Sentiu que onde estava não lhe preenchia que necessitava correr o mais longe, ter a sensação de liberdade, vento úmido congelando os pulmões e rosto, coração tão cheio de adrenalina, que parece mar em tempestade.
Um vazio sem explicação uma vontade de chorar até soluçar, ganhar um abraço sem fim, um colo e cafuné, quantas vezes você precisou ir para saber que precisava ter ficado ou quantas ficou querendo ter ido.
Quantos debates sem fim já se passaram em apenas um passo e quantas escolhas foram tomadas antes de chegar à próxima esquina e quantas memórias foram esquecidas de verdade e quantas você se lembra na caminhada de volta pra casa sobre as estrelas e ainda quantas se esforça para afastar todos os dias pela manhã antes do café.

Hoje, amanhã, quando for passar por uma pessoa, seja quem for, deseja uma boa noite, um bom dia, não se sabe quantos conflitos ela está tendo hoje ou quantos ainda vão lhe abater até que ela possa se deitar.

Cordeiros ao abate



Deveríamos poder congelar o tempo com tanta facilidade como que ficamos sem respirar, passo após passo, sentir a respiração cada vez mais alto e pesada como se carregasse um fardo muito maior que conseguimos sustentar. Manter a mente vazia transbordando em devaneios carregados de incertezas da morte, cada desgosto experimentado em diversas decisões tomadas, antes de apontar o arco e ver a flecha sair pela culatra.
Correr pelo vazio tão cheio de felicidades tão vazias agora. Sendo o cordeiro do abate com a prioridade de andar com tranquilidade, considerando não ter mais um respiro, enxergando várias decisões desabrochando.

Paladino remoto



Em sua mão uma espada, seguida de rastros pegajosos em seu horizonte um amanhecer esplendoroso, numerosos paladinos aos prantos e vários outros aliados radiantes com tantas novas histórias para serem contadas.
Uma armadura em banhada com suor e sangue, vários gritos de clemência de seus oponentes abafados pelo hino de louvor de seus seguidores, a um cavaleiro que nada tinha tão pouco e agora já almeja centenas de donzelas.
Sua próxima trilha cercada de luxuria e tavernas, risos e canecos, para assim alcançar seus desejos, destruindo suas ânsias e inseguranças de um tempo não tão distante.

Perturbada alma


Perdida em milhares de pensamentos repugnantes sobre como seria o fim dos tempos, se senti tão perdi quanto uma criança se sentiria após ser afastada da mãe por algo terrível deixando à sozinha, desamparada sem saber para onde ir ou como ir, deixando-a totalmente sozinha em meia a estranhos. Me perdi não só dos pensamentos sem motivo, me perdi de mim mesma perdi todos os objetivos todos os incentivos todas as manias todas as vontades, me perdi.

E todas as manhas quando me levanto, tomo café, escovo os dentes e faço todos os afazeres do dia são coisas tão programadas em minha triste alma como a programação da TV a cabo. Os dias são tão iguais com aqueles que se passaram há meses a única coisa que muda no tempo é minha alma que se perde cada vez mais do meu corpo e hoje é como se alma e corpo vagassem cada um para seu lado se aturando, não aturando aqueles que estão ao meu redor não enxergando meu declínio, a minha queda tão do topo e tão forte em mar aberto e profundo de desilusão.